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Missão de revalidação do Geoparque Quarta Colônia encerra visitas com destaque para participação das comunidades

Fotografia colorida na horizontal de um momento durante a visita dos avaliadores do Geoparque Mundial da UNESCO ao Quilombo Vovó Isabel. No centro da imagem, a coordenadora do Quilombo Vovó Isabel, Joceli Pereira, uma mulher negra de cabelos curtos e cacheados, veste um vestido amarelo com estampas em azul, vermelho e marrom enquanto abraça a avaliadora Daniela Rocha, uma mulher de cabelos loiros que aparece de costas para a câmera, usando uma jaqueta em tom bege e calça escura. As duas sorriem durante o abraço. À esquerda, também de costas para a câmera, está o avaliador Jean-Luc, com cabelos grisalhos, vestindo uma camiseta polo azul-clara e calça escura, observando o encontro. Mais ao fundo, à esquerda, uma mulher de cabelos grisalhos e cacheados sorri ao acompanhar a cena, enquanto outras pessoas observam a recepção. No lado direito da imagem, duas crianças assistem ao momento. Uma delas usa um vestido rosa e uma faixa colorida atravessada no peito, além de um laço estampado nos cabelos. Ao fundo, há uma construção de paredes em tom bege, com portas e janelas, e o chão é de terra e pedras, indicando um ambiente externo durante o dia.
Avaliadores do Geoparque Mundial da UNESCO terminaram a visita de campo neste sábado (18)

Os avaliadores da UNESCO Daniela Rocha e Jean-Luc Desbois concluíram, na noite deste sábado (18), a agenda de visitas no Geoparque Mundial da UNESCO Quarta Colônia. Após três dias percorrendo os nove municípios do território, conhecendo geossítios, museus, centros culturais, escolas, comunidades e iniciativas de desenvolvimento local, a missão de revalidação foi encerrada com atividades que evidenciaram o protagonismo da população na preservação do patrimônio natural e cultural. Ao longo da missão, os avaliadores tiveram o acompanhamento da tradutora Amy Lee, da Diretoria de Relações Internacionais (DRI) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), instituição parceira na gestão e no desenvolvimento das ações do Geoparque Quarta Colônia.

Na sexta-feira (17), segundo dia da programação, Daniela Rocha e Jean-Luc Desbois conheceram diferentes iniciativas que integram o patrimônio histórico, cultural e geológico da região. O roteiro incluiu visitas à Estação Ferroviária de Restinga Sêca, à Casa de Cultura Iberê Camargo, em São João do Polêsine, ao Instituto Cultural Brasileiro-Alemão de Agudo, à Praça dos Dinossauros e ao Restaurante Fábrika, em Mata, além do Geossítio Cerro da Figueira. Os avaliadores também acompanharam ações de educação patrimonial desenvolvidas com escolas em São João do Polêsine, visitaram o Museu Arqueológico da Quarta Colônia e participaram da programação da Semana do Município de Dona Francisca.

Patrimônio histórico abre o último dia da missão

A programação de sábado começou em Silveira Martins, com visita ao Sítio Marco 50, referência histórica da colonização italiana na região. Em seguida, os avaliadores conheceram o Espaço Multidisciplinar da UFSM, e seguiram para o Mirante Michelin.

Ainda pela manhã, a missão passou pelo Centro de Pesquisas Genealógicas (CPG), em Nova Palma, instituição dedicada à preservação da memória das famílias de imigração italiana e referência para estudos sobre a formação histórica da região. As atividades antecederam a visita à comunidade quilombola Vovó Isabel, onde a programação passou a enfatizar a diversidade cultural presente no território.

Memória e resistência no Quilombo Vovó Isabel

Fotografia colorida na horizontal de uma apresentação cultural realizada por crianças do Quilombo Vovó Isabel para os avaliadores do Geoparque Mundial da UNESCO e o público. No centro da imagem, cerca de dez crianças vestidas com camisetas e calças brancas formam um círculo sobre o piso azul de um ginásio. Ajoelhadas no chão, elas mantêm os braços erguidos e as mãos dadas, enquanto algumas cantam ou olham para o alto, durante a apresentação. No chão, ao redor do grupo, estão distribuídos bastões de madeira utilizados na atividade. Ao fundo, uma fileira de cadeiras reúne os avaliadores e demais participantes, que acompanham atentamente a apresentação. Entre eles, a coordenadora do Quilombo Vovó Isabel, Joceli Pereira, com vestido amarelo estampado, além de outros moradores e visitantes. Algumas pessoas registram o momento com celulares. O espaço possui paredes de tijolos aparentes, janelas altas com entrada de luz natural e cobertura metálica. Atrás do público, dois painéis coloridos com referências à cultura afro-brasileira complementam o ambiente.
Crianças do Quilombo Vovó Isabel realizam apresentação cultural

A primeira atividade da tarde levou os avaliadores à Casa da Quilombola Vovó Isabel, na localidade de Santo Inácio, em Nova Palma. O espaço preserva a memória da presença negra na Quarta Colônia e representa a trajetória dos remanescentes de quilombos formados na região a partir da resistência de pessoas escravizadas e de seus descendentes.

Entre as figuras que marcaram essa trajetória está Maria Isabel Rafaela Pinto, conhecida como Vovó Isabel, que dá nome à Associação Remanescente de Quilombo da localidade. Vinda da Fazenda das Árvores, em Júlio de Castilhos, ela e seus filhos estão entre os ex-escravizados que passaram a viver na região. Ao longo das gerações, os moradores também preservaram saberes tradicionais, como a atuação das benzedeiras, responsáveis pela transmissão de conhecimentos sobre plantas medicinais, práticas de cura e manifestações culturais.

A presença afrodescendente no local resultou na criação da Associação Remanescente de Quilombo Vovó Isabel, em 2006, e no reconhecimento oficial como comunidade remanescente de quilombo, em 2008. Atualmente, o espaço desenvolve ações voltadas à valorização da cultura, da memória e da produção local.

Durante a visita, os avaliadores acompanharam apresentações de capoeira, conheceram peças de artesanato produzidas no local e ouviram relatos dos moradores sobre as iniciativas desenvolvidas no território. Para a professora e diretora da Escola Santo Inácio, Patrícia Telles, a presença do quilombo no Geoparque fortalece o sentimento de pertencimento e contribui para o resgate da identidade das novas gerações. “Fazer parte é muito orgulho para nós. A gente veste a camisa e defende o que nós temos de bonito quanto à questão do turismo, da história e da construção da Quarta Colônia”, destaca.

A presidente da Associação Quilombo Vovó Isabel, Joceli Pereira, afirma que a inserção do grupo nas ações do Geoparque ampliou a visibilidade da trajetória quilombola. “Muita coisa mudou nas nossas vidas porque a gente era uma comunidade escondida. Agora, com o Geoparque, estamos sendo reconhecidos”, afirma. Para ela, a visita dos avaliadores da UNESCO representa o reconhecimento de uma trajetória marcada pela resistência e pela preservação das raízes deixadas pelos antepassados.

Tradição gaúcha integra patrimônio cultural do território

Fotografia colorida na horizontal de um momento de confraternização no CTG Estância do Sobrado, durante a visita dos avaliadores do Geoparque Mundial da UNESCO. No centro da imagem, o avaliador Jean-Luc, um homem de cabelos curtos grisalhos, usa óculos e camiseta polo azul-escura enquanto experimenta um pedaço de churrasco gaúcho. Ao seu lado está a tradutora Amy Lee, uma mulher de cabelos grisalhos presos em um rabo de cavalo, usando óculos, camiseta verde e colete bege. Ela também segura um pedaço de carne e conversa com Jean-Luc. À esquerda, uma pessoa ergue um espeto com um pedaço de carne assada, oferecendo o churrasco aos visitantes. Em primeiro plano, sobre uma mesa, há uma grande travessa de madeira com pães e outra com linguiças, além de outros alimentos típicos. Ao fundo, visitantes acompanham a degustação, alguns registrando o momento com celulares. O ambiente é coberto, com estrutura de madeira e telhado de zinco aparente, característico de um galpão de CTG, iluminado pela luz natural que entra pelas laterais.
Daniela Rocha e Jean-Luc vivenciam a cultura gaúcha durante visita ao CTG Estância do Sobrado

Da herança afro-brasileira, os avaliadores seguiram para outro elemento da identidade cultural da Quarta Colônia. No município de Pinhal Grande, o Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Estância do Sobrado apresentou costumes que fazem parte da história e do cotidiano do Rio Grande do Sul. Recebidos por integrantes da entidade, Daniela Rocha e Jean-Luc Desbois participaram de uma roda de chimarrão, andaram a cavalo e provaram o tradicional churrasco gaúcho, em contato com práticas preservadas ao longo das gerações.

Fundado em 1991, o CTG surgiu inicialmente com o nome de Velho Sobrado, em referência a um casarão que existiu na região e pertenceu a João Gonçalves Padilha, considerado o primeiro morador de Pinhal Grande. No mesmo ano, a entidade adotou o nome de CTG Estância do Sobrado e passou a atuar na preservação e difusão da tradição gaúcha no município. Atualmente, promove cursos de dança, fandangos, rodeios, desfiles a cavalo e outras atividades que reúnem participantes de diferentes localidades da região.

Durante a visita, os avaliadores também conheceram banners e trabalhos produzidos por crianças do CTG e apresentados na JAI Mirim (Jornada Acadêmica Integrada), iniciativa da UFSM criada em 2022 pela professora Maria Medianeira Padoin, coordenadora científica do Geoparque Quarta Colônia. Coordenada pela Pró-Reitoria de Extensão (PRE), em parceria com a Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PRPGP), a iniciativa estimula estudantes da educação básica a desenvolver pesquisas sobre o patrimônio geológico, histórico e cultural da região.

Para o patrão do CTG Estância do Sobrado, César Ferrari Piovesan, a presença dos avaliadores representa o reconhecimento do trabalho desenvolvido pela entidade na preservação das tradições gaúchas. “Para nós, significa termos cada vez mais firmeza no que a gente está fazendo: cultivar a cultura”, afirma. Segundo ele, o reconhecimento do Geoparque também contribui para aproximar as novas gerações da história local. “Nós termos o selo do Geoparque e vermos também a nossa juventude conhecendo essas descobertas é muito grandioso”, destaca.

A visita ao CTG reforçou um dos pilares da revalidação dos Geoparques Mundiais da UNESCO: a valorização da identidade cultural dos territórios. Entre os critérios avaliados estão a conservação do patrimônio geológico e o fortalecimento dos saberes, das tradições e das manifestações culturais preservadas pelos moradores locais.

A terra dos “pequenos notáveis”

Fotografia colorida na horizontal de uma visita técnica ao Geossítio Fossilífero São Luiz, em Faxinal do Soturno. No centro da imagem, o integrante do CAPPA, Flávio Pretto, está de perfil, usando óculos, camisa xadrez em tons de cinza e preto e calça jeans. Com os cabelos longos presos em um coque, ele conversa com o grupo e apresenta informações sobre o geossítio. Em primeiro plano, de costas para a câmera, está o avaliador do Geoparque Mundial da UNESCO, Jean-Luc, com cabelos curtos grisalhos e camiseta polo azul-clara, acompanhando a explicação. À esquerda, também de costas, aparece uma mulher de cabelos grisalhos presos em um coque, vestindo um moletom bordô com a identidade visual do Geoparque Quarta Colônia. Ao fundo, destaca-se uma extensa formação de solo avermelhado com afloramentos rochosos, característica do geossítio, cercada por vegetação e árvores de médio e grande porte. Sobre a encosta, uma pessoa sentada observa a atividade. A cena acontece ao ar livre, durante o dia, com os participantes voltados para a explicação sobre o patrimônio geológico do local.
Avaliadores visitam o Geossítio Fossilífero São Luiz, em Faxinal do Soturno

A última visita técnica da missão ocorreu no Geossítio Fossilífero Linha São Luiz, em Faxinal do Soturno. Formado por rochas de aproximadamente 225 milhões de anos, o local preserva registros do período Triássico e é reconhecido como uma das principais áreas de pesquisa paleontológica da Quarta Colônia. Durante a visita, os avaliadores acompanharam uma apresentação conduzida por Flávio Pretto, pesquisador do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (CAPPA), que destacou a importância científica e patrimonial do geossítio.

Ao longo das últimas décadas, as escavações realizadas na região revelaram fósseis de répteis primitivos, cinodontes (grupo ancestral dos mamíferos), dinossauros e espécies vegetais, como araucárias primitivas. Entre as descobertas estão os chamados “pequenos notáveis”, animais de pequeno porte que tiveram grande importância para a compreensão da evolução dos vertebrados.

Entre eles estão o Elevosaurus, o Riograndia, o Brasilodon, o Irajatherium e o Maehary, espécies que contribuem para estudos sobre a origem dos mamíferos e dos pterossauros. A história do geossítio também é marcada pelo trabalho dos irmãos Abraão e Daniel Cargnin, moradores da Quarta Colônia que, mesmo sem formação em Paleontologia, tornaram-se referência nas pesquisas de campo e colaboraram com pesquisadores de universidades e museus de diferentes regiões do país.

Comunidade marca encerramento da missão

Fotografia colorida na vertical da coletiva de imprensa realizada ao final da missão de revalidação do Geoparque Mundial da UNESCO. No centro da imagem, a avaliadora Daniela Rocha está sentada, segurando um microfone com a mão direita enquanto fala. Ela tem cabelos loiros na altura dos ombros e veste uma camisa em tom verde-oliva sobre uma blusa clara e calça preta. Sua expressão é sorridente e ela olha em direção aos participantes do encontro. À esquerda, também sentada, está Eduarda Brum, diretora do Geoparque Quarta Colônia. Ela tem cabelos longos castanhos, veste uma camiseta verde com a identidade visual do Geoparque, colete bege e crachá, e observa Daniela durante a fala. À direita, aparece o avaliador Jean-Luc, sentado e levemente voltado para Daniela. Ele tem cabelos curtos grisalhos, veste uma camiseta polo azul-clara e sorri enquanto acompanha a conversa. Ao fundo, sobre uma mesa coberta por uma toalha branca, há um arranjo de flores brancas e folhagens ao lado de imagens religiosas. As paredes brancas, a iluminação suave e os elementos religiosos indicam que o encontro acontece no interior da capela localizada ao lado do Museu Histórico Geringonça, na comunidade de Novo Treviso, em Faxinal do Soturno.
Avaliadores destacaram pontos positivos observados durante a missão

Após três dias de visitas pelo território da Quarta Colônia, a etapa de revalidação chegou ao fim na noite de sábado (18). Os avaliadores Daniela Rocha, de Portugal, e Jean-Luc Desbois, da França, visitaram o Museu Histórico Geringonça, na comunidade de Novo Treviso, em Faxinal do Soturno. O espaço preserva a história da imigração italiana na região e reúne um acervo de utensílios utilizados pelos primeiros imigrantes que se estabeleceram na localidade.

Em seguida, durante a coletiva de imprensa, os avaliadores compartilharam as primeiras impressões sobre o percurso e destacaram a participação dos moradores como um dos principais diferenciais observados ao longo da avaliação.

Para Jean-Luc, a receptividade encontrada ao longo da programação foi um dos aspectos mais marcantes. “Visitámos nove comunidades diferentes e, em todas elas, as pessoas foram muito acolhedoras, deram uma recepção muito calorosa”, afirma.

O avaliador também ressaltou que a mobilização da população é um dos critérios fundamentais para um Geoparque Mundial da UNESCO. “Nós sentimos que há muitas pessoas envolvidas. Quanto isso impacta? Muito. É um dos pontos mais importantes e um daqueles que nós temos de verificar.” Segundo Jean-Luc, a missão encontrou uma articulação que reúne gestores públicos, produtores rurais, artesãos, pesquisadores e moradores em torno de um objetivo comum.

Daniela reforçou essa percepção ao afirmar que o protagonismo das pessoas está no centro da proposta dos Geoparques. “O Geoparque é para as pessoas. Senti que todos falam do território com uma só voz, e isso é muito importante”, destaca.

Questionados sobre os momentos que mais chamaram a atenção durante a visita, Jean-Luc citou o Monte Grappa, em Ivorá, pela relação entre a paisagem, a imigração italiana e o sentimento de união demonstrado pelos moradores na preservação dessa memória. Daniela, por outro lado, preferiu destacar uma sensação vivenciada ao longo de toda a missão. “Eu não escolheria um lugar. Acho que envolve a sensação de paz. Em muitos lugares por onde passámos, há uma sensação de tranquilidade, paz e bem-estar”, aponta.

Para a diretora executiva do Geoparque Mundial da UNESCO Quarta Colônia, Eduarda Brum, a primeira revalidação representa uma nova etapa de um trabalho construído ao longo de mais de uma década. “Hoje estamos aqui na nossa primeira revalidação e trabalhamos incansavelmente, todos os meus colegas, e muito felizes por tudo o que este momento representou para nós”, afirma.

Após a conclusão da agenda na Quarta Colônia, os avaliadores seguem para Caçapava do Sul, onde realizam, até o dia 23 de julho, a segunda etapa da missão de revalidação. Ao final das visitas aos dois territórios, será elaborado um relatório técnico reunindo os avanços observados, os pontos positivos e as recomendações de melhoria. O documento será encaminhado à UNESCO, que decidirá sobre a manutenção do título de Geoparque Mundial da UNESCO no fim de 2026 ou início de 2027.

Embora o resultado da revalidação só seja conhecido após a análise desse relatório, as impressões compartilhadas pelos avaliadores durante a coletiva indicam uma expectativa positiva sobre o trabalho desenvolvido na Quarta Colônia.

Confira mais registros da missão:

Texto: Giovanna Felkl, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Fotos de capa e da matéria: Giovanna Felkl e Pedro Moro, estudantes de Jornalismo e bolsistas da Agência de Notícias
Edição: Mariana Henriques, jornalista

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