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Pesquisa da UFSM identificou 287 atropelamentos de anfíbios e répteis nos acessos ao campus sede 

Foto colorida vertical de homem abaixado ao chão com uma trena na mão direita. Ele avalia o trecho em que uma cobra foi atropelada em área asfaltada. O homem usa boné, óculos acima do boné e roupa curta.
O universitário Felipe Rigue, do curso de Ciências Biológicas, foi um dos responsáveis pelo trabalho de campo

O Laboratório de Herpetologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) identificou 287 atropelamentos de anfíbios e répteis em percurso de 7,1 quilômetros nos acessos ao campus sede. O mapeamento foi feito entre abril de 2024 e maio de 2025, e comparou dados das quatro estações do ano. Entre os principais resultados está a concentração dos atropelamentos em trechos asfaltados e na meia estação – outono e primavera.

Embora existam estudos semelhantes na Mata Atlântica e regiões Semiáridas, a pesquisa é considerada pioneira em malha urbana no bioma Pampa. Por aqui, existem estudos sobre atropelamentos da herpetofauna – anfíbios e répteis – apenas em áreas distantes da área urbana, em rodovias próximas de campos, banhados e coxilhas, por exemplo. Já o percurso monitorado pelo Laboratório de Herpetologia compreende estrada com pavimentação, com paralelepípedos ou sem pavimentação e com diferentes usos do solo – agrícola, urbano e área de preservação ambiental. 

“Temos um mosaico de ambientes antropizados”, comentou o professor Tiago Gomes dos Santos, coordenador do Laboratório de Herpetologia e um dos autores do artigo publicado na revista “Studies on Neotropical Fauna and Environment”, do Reino Unido. Os demais autores do estudo são os pesquisadores Felipe Simionatto Rigue, Katherina Kelger da Silva e Teilor Carvalho Koscrevic.

Como parte dos dados foram coletados durante as enchentes de 2024 e após um episódio de chuva ácida, os pesquisadores acreditam que os dados poderiam ser ainda mais expressivos, observou Felipe Rigue, formando em Ciências Biológicas. O grupo avalia a realização de um estudo longitudinal para comparar com peŕodos sem incidência de eventos extremos. Outra ponderação é a ação de predadores, como mamíferos e aves de rapina, que podem ter comido os animais atropelados antes de serem encontrados pelos pesquisadores. 

Foto colorida horizontal de trecho asfaltado de estrada. Do lado esquerdo da estrada, vegetação menos densa. Do lado direito da estrada, mata densa
Trechos asfaltados no acesso ao campus sede pela estrada de Pains e próximo ao Jardim Botânico concentram os atropelamentos de anfíbios e répteis

Identificação dos animais é como um trabalho de detetive 

O trabalho de campo do Laboratório de Herpetologia foi feito todas as semanas em três momentos do dia – manhã, início e final da tarde – com duplas de pesquisadores que percorreram os trechos a pé para observar os dois lados do percurso. Assim que avistaram as carcaças dos animais, os cientistas fizeram fotos e marcações da localização com o uso celular. Todas as carcaças de anfíbios e répteis foram recolhidas para análise e para evitar recontagem dos dados. 

A identificação dos espécimes ocorreu in loco ou no laboratório a partir da taxonomia. “Como temos uma coleção de referência na UFSM, fazemos um serviço de CSI”, explicou o professor Tiago sobre a identificação da espécie ou do gênero de cada animal. O trabalho compreendeu, por exemplo, a comparação com padrões, cores, manchas e quantidade de escamas. Em função do estado das carcaças, não foi possível definir o gênero de alguns anfíbios. 

Imagem colorida horizontal de uma rã em um superfície com água e vegetação folhosa. O animal, posicionado lateralmente para a esquerda, está apoiado sobre as patas traseiras dentro d’água e com uma das patas dianteiras fora da água e apoiada em uma folha. A rã tem olho escuro e pele rugosa em tons claros e escuros de marrom e apresenta o saco vocal, o papo, inchado e igualmente rugoso.
Animal com reprodução explosiva, rã de enchente (Rhinella dorbignyi), foi o anfíbio mais identificado pelo Laboratório de Herpetofauna durante o estudo sobre atropelamentos no campus sede (Foto: Tiago Gomes)

86% dos atropelamentos ocorreram em estrada pavimentada

No campus sede da UFSM, circulam, conforme o Laboratório de Mobilidade da instituição, de 10 mil a 11 mil veículos por dia, incluindo carros de passeio e ônibus. Nos horários de pico, o fluxo chega a ser de 1 mil veículos por hora. Mesmo que a velocidade média permitida seja de 30 km/h, os estudiosos presenciaram à noite motoristas que trafegavam com velocidade superior.  

Os atropelamentos da herpetofauna ocorreram de forma concentrada: 86% no trecho asfaltado. “Não esperávamos que houvesse uma diferença tão grande em função do tipo de pavimento”, revela o professor. A velocidade na estrada asfaltada, como constatam os pesquisadores, costuma ser maior. Felipe complementa que o cascalho e os buracos impedem que os motoristas dirijam mais rapidamente.

Os pesquisadores destacam outras três situações. A primeira é que o trecho pavimentado é atrativo para os répteis por conservar o calor durante a noite, o que ajuda esses animais a manterem sua temperatura corporal. A segunda é a característica de absorção de ruído do asfalto, que, diferente do cascalho e do paralelepípedo, não alerta os animais sobre a vinda dos veículos. O terceiro ponto é que os anfíbios e os répteis têm mobilidade reduzida, ainda mais os encontrados pelo laboratório, caracterizados, em geral, pelo tamanho pequeno.

Durante a coleta, os cientistas também encontraram mamíferos e aves atropeladas no trecho monitorado. A pesquisa com dados sobre os outros vertebrados ainda não está concluída. 

Imagem colorida horizontal de uma falsa coral com o corpo enrolado em formato de zigue-zague. A cobra corredeira está em uma superfície coberta com uma espécie de palha de cor bege. O animal está com a cabeça levantada direcionada à direita e tem o olho em cor alaranjada escuro. A cobra tem o corpo coberto por escamas nas cores laranja, preto e bege distribuídas de maneira uniforme e entrelaçada.
Período de concentração de atropelamentos da falsa coral (Oxyrhopus rhombifer), réptil mais abudante, ocorreu no outono, época de nascimento destes animais (Foto: Tiago Gomes)

Acidentes ocorreram com mais intensidade na primavera e no outono

A concentração dos atropelamentos de anfíbios ocorreu na primavera, especialmente em novembro, em áreas com densa vegetação e em períodos com antecedentes climáticos, como precipitação, umidade e temperatura. Algumas das espécies dos anfíbios encontrados, como a rã de enchente (Rhinella dorbignyi), têm reprodução explosiva em dias quentes e úmidos. Neste fenômeno, vários anfíbios se reproduzem simultaneamente em um curto espaço de tempo. 

A rã de enchente, aliás, foi o anfíbio mais encontrado durante a coleta. O segundo mais abundante foi a rã crioula (Leptodactylus macrosternum), e o terceiro, a perereca-raspa-cuia (Scinax fuscovarius).

Já os atropelamentos de répteis se deram mais no início do outono, princialmente em abril. É justamente o período do nascimento dos filhotes da falsa coral (Oxyrhopus rhombifer), o réptil mais encontrado neste estudo. A segunda espécie de répteis mais presente é a corredeira carenada (Dryophylax hypoconia), e a terceira, a cobra d’água verde (Erythrolamprus jaegeri).

As espécies identificadas pelos pesquisadores durante o levantamento representam 67% dos anfíbios (16 espécies) e 39% dos répteis (14 espécies) conhecidos no campus sede da UFSM. “O estudo mostra que os animais estão se deslocando entre os espaços que restaram do ambiente natural. Eles têm que transitar”, avaliou Tiago.

Imagem colorida horizontal de uma rã em um superfície úmida, pedregosa e próxima de vegetação. O animal, posicionado lateralmente para a direita, está com as patas traseiras dobradas. A rã tem um olho grande escuro, com uma pequena íris esverdeada. A pele do animal é rugosa em tons marrons e verde terrosos, com manchas escuras em todo o corpo e barriga em cor mais clara e sólida.
Rã crioula (Leptodactylus macrosternum) foi o segundo tipo de anfíbio mais atropelado (Foto: Tiago Gomes)
Imagem colorida horizontal de uma rã em um superfície cheia de pedrinhas brita. O animal está voltado para a direita, com as pernas dianteiras e traseiras estendidas. A rã tem um olho grande escuro com íris de cor castanha. A pele do animal é rugosa em tons marrom e verde escuros no dorso com algumas manchas pretas. Existe, ainda, uma faixa em torno de todo o corpo em amarelo com manchas marrons. A barriga é branca.
A perereca-raspa-cuia (Scinax fuscovarius) foi a terceira espécie de anfíbio mais presente na coleta dos pesquisadores (Foto: Tiago Gomes)

“Sabemos quando e onde atuar”

Como os dados foram bastante localizados no início do outono e na primavera, e no trecho asfaltado, especialmente entre o Jardim Botânico e a guarita da estrada de Pains, os cientistas constataram que a mitigação pode ser pontual. “Sabemos quando e onde atuar”, afirmou o professor.

Entre as medidas de mitigação, os pesquisadores apontam a instalação de placas de sinalização de fauna, instalação de redutores de velocidade e de passagens de fauna. Felipe informa que existem várias estratégias possíveis, por exemplo, muretas de contenção e redirecionamento para impedir que répteis e anfíbios acessem a estrada. 

Em relação ao período do ano, como os episódios ocorreram de maneira concentrada, as medidas de mitigação poderiam ser mais rígidas na meia estação e relaxadas nos demais períodos do ano.

Imagem colorida horizontal de uma cobra com o corpo parcialmente enrolado em dois segmentos, sendo um em formato do símbolo do infinito. A corredeira está no solo, em uma superfície terrosa escura com pequenos gravetos e folhas verdes, com a cabeça levantada direcionada à direita. A cobra apresenta pele escamosa em diferentes tons de marrom e alguns detalhes em preto, marrom vermelho e bege na porção superior, conferindo um contorno característico.
Cobra corredeira carenada (Dryophylax hypoconia) foi a segunda espécie de réptil mais atropelada no campus (Foto: Tiago Gomes)
Imagem colorida horizontal de uma cobra verde com o corpo parcialmente enrolado e sinuoso, indicando a possibilidade de movimento. A cobra d’água está em terreno úmido e com gramíneas muito espessas e pequenos gravetos. O animal tem o olho arredondado em cor marrom avermelhado, apresenta a cabeça levantada direcionada à direita e tem pele verde com escamas acinzentadas que contornam todo o seu corpo.
Cobra d’água verde (Erythrolamprus jaegeri) foi terceira espécie de réptil mais presente no monitoramento (Foto: Tiago Gomes)

Afinal, qual a importância dos anfíbios e dos répteis? 

Apesar de muitas pessoas não gostarem de sapos e cobras, os anfíbios e os répteis são animais importantes para a manutenção do equilíbrio ecológico. A herpetofauna ajuda no controle da população de mosquitos, baratas e ratos. Existem ainda serpentes não peçonhentas que se alimentam de cobras com peçonha. 

Como informou Felipe: “os anfíbios são bioindicadores de ambiente”, pois ajudam a monitorar a qualidade dos ecossistemas, ao identificar como está a poluição do ar, do solo e da água. Além disso, substâncias encontradas na pele dos anfíbios e no veneno das serpentes são estudadas como bioativos em analgésicos, antiparasitários e medicamentos indicados para a pressão alta. “O mundo estéril de alguns bichos será muito pior”, alertou Tiago.

Texto: Maurício Dias, jornalista

Fotos: Tiago Gomes/Laboratório de Herpetofauna/UFSM

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