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“Não tem como eu existir sem um livro por perto”: a leitura em tempos de hiperconexão

Os livros fazem parte da rotina de Nadine desde cedo

Aos 11 anos, Nadine Guarize descobriu o mundo. Na verdade, Porto Mauá, no noroeste do Rio Grande do Sul, era seu mundo desde que havia nascido. Mas, foi ao conhecer Crepúsculo, de Stephenie Meyer, que entendeu a grandiosidade que existia dentro dos livros. Pensar que era possível escrever sobre um lugar onde vampiros e lobisomens eram reais fez com que Nadine se apaixonasse pelas páginas. 

A mãe de Nadine, assim como sua avó, cultivava a leitura como algo fundamental. Quando ela nasceu, não foi diferente. Os livros infantis fizeram parte de seu pequeno mundo desde cedo. Apesar de ainda não saber ler, a mãe de Nadine a incentivava a tentar. 

Foi quando começou a frequentar a escola que teve seu primeiro contato com livros infantojuvenis. Ao comentar com sua professora que havia gostado do filme Crepúsculo, descobriu que a história tinha sido originalmente escrita em um livro e que poderia pegá-lo emprestado. Um novo mundo se abria. “Naquele ano, acho que li 50 livros, muitos de fantasia”, comenta Nadine. 

Com o passar dos anos, a leitura seguiu presente em sua trajetória. Hoje, aos 23 anos, Nadine cursa Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria e está em seu último ano. Ao longo da vida, conheceu muitos lugares sem sair do país, “a minha mãe sempre fala que, quando a gente está lendo, viaja para lugares que não conseguiríamos ir. Conhecemos novos lugares e culturas em livros da Itália, do Irã, da Índia e da Espanha, por exemplo”. 

O hábito da leitura ajudou a construir sua identidade. “Eu não consigo imaginar a minha vida sem a leitura. Não imagino um mundo em que letrinhas em um papel não tenham significado. Isso é uma parte intrínseca na minha personalidade: eu sou o que eu sou, porque eu sempre amei ler. Não tem como eu existir sem um livro por perto”, afirma a leitora. 

Em um cenário de hiperconexão, no entanto, histórias como a de Nadine convivem com novos desafios para a formação e a manutenção do hábito da leitura.

Dia Mundial do Livro 

O dia 23 de abril é o Dia Mundial do Livro. Em 1995, a Conferência Geral da UNESCO definiu a data, que coincide com o falecimento de William Shakespeare, Miguel de Cervantes e Inca Garcilaso de la Vega, como um momento de homenagem aos livros e autores. Segundo a UNESCO, “os livros e a arte de contar histórias são um legado da humanidade. São ferramentas poderosas para o pensamento crítico, a reflexão e a emancipação”. 

Além disso, todos os anos, desde 2002, a UNESCO escolhe a Capital do Livro. Em 2025, o Rio de Janeiro foi o escolhido. Neste ano, Rabat, no Marrocos, assume o título, com a missão de promover a leitura para diferentes faixas etárias e em toda a sociedade, tanto no país anfitrião quanto internacionalmente.  

No entanto, apesar do incentivo da UNESCO, os dados brasileiros mostram o contrário. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, em 2019, 52% da população brasileira era considerada leitora. Em 2024, esse número caiu para 47%, o que representa cerca de 93,4 milhões de leitores.  A redução ocorre no mesmo período em que cresce o consumo de conteúdos digitais, especialmente nas redes sociais, que passam a disputar diretamente o tempo antes dedicado à leitura.

Segundo a Agência Senado, o estudo aponta para a diminuição da capacidade de concentração e compreensão, acendendo um alerta sobre o avanço do analfabetismo funcional. 

A falta de tempo é o motivo mais comum entre os brasileiros que não leem. Enquanto isso, 78% das pessoas responderam que gostam de usar a internet em seu tempo livre. Nesse contexto, a questão que se coloca não é apenas se as pessoas estão lendo menos, mas também como e em que formatos a leitura tem acontecido.

Das páginas ao scroll ou vice- versa? 

Livros físicos e digitais fazem parte da rotina dos leitores

Segurar um livro, sentir a textura das páginas e até o cheiro do papel ainda faz parte da experiência de leitura para muitas pessoas. Para outras, a praticidade fala mais alto: carregar dezenas de títulos em um único dispositivo, ajustar o tamanho da fonte e ler em qualquer lugar são vantagens que tornam o livro digital uma opção cada vez mais presente no cotidiano. Entre o apego ao objeto físico e a facilidade do digital, a leitura também passa por uma transformação de formato, e não apenas de hábito. 

Dados recentes mostram que essa mudança acontece de forma combinada. Segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pela Nielsen BookData, 56% dos consumidores brasileiros compraram apenas livros físicos nos últimos 12 meses, enquanto 14% consumiram apenas digitais e 30% transitaram entre os dois formatos. Isso indica que, embora o impresso ainda predomine, o digital já faz parte da rotina de quase metade dos leitores e não está restrito a dispositivos específicos. Cada vez mais, a leitura digital acontece no celular, integrado ao uso cotidiano das telas. 

O avanço também aparece no mercado editorial. Em 2024, os conteúdos digitais representaram cerca de 9% do faturamento das editoras, com crescimento em relação ao ano anterior. Além disso, o formato digital é majoritariamente composto por e-books, que correspondem a cerca de 91% dos títulos digitais publicados no país.

Mesmo assim, o livro físico mantém vantagens valorizadas pelos leitores. Entre os motivos para a preferência pelo impresso estão o manuseio do objeto, a possibilidade de folhear antes da compra e a experiência sensorial da leitura. Já o digital se destaca pela praticidade, portabilidade e facilidade de acesso.

É nesse cenário que as redes sociais têm tomado parte da vida cotidiana. É possível passar horas assistindo a vídeos curtos sem perceber o tempo passar. Nesse contexto, tirar um momento do dia para ficar em silêncio, realizar uma atividade menos enérgica e incentivar a concentração se torna algo distante. Os momentos de lazer passam a ser guiados por conteúdos rápidos, níveis altos e incontrolados de dopamina, o neurotransmissor do prazer,  e superficialidade. 

Mesmo com os impactos do uso excessivo de telas, surgem iniciativas que incentivam a leitura. Um exemplo é o “booktok”, nicho da plataforma TikTok voltado para a divulgação de livros. Nesse espaço, criadores de conteúdo compartilham recomendações e experiências de leitura, o que pode despertar o interesse de novos leitores. Se, por um lado, as telas, seja por meio de redes sociais ou dos próprios livros digitais, competem com os livros, por outro também podem funcionar como porta de entrada para novas leituras. 

Maria Clara da Silva Ramos, professora de Literatura do curso de Letras da UFSM, vê aspectos positivos nesse movimento. “Acho que pode influenciar outras pessoas a lerem. O problema das redes sociais é a falta de controle sobre o conteúdo”, avalia. 

É nesse cenário que autores brasileiros como Machado de Assis, Clarice Lispector, Carla Madeira, Guimarães Rosa, Carolina Maria de Jesus e Socorro Acioli têm ganhado visibilidade entre os jovens. Obras como A Hora da Estrela, Cabeça de Santo e Tudo é Rio passaram a circular com mais frequência entre leitores dessa comunidade digital. Mais do que substituir o livro físico, o ambiente digital tem reconfigurado as formas de acesso, recomendação e interesse pela leitura.

Toda leitura é válida 

Nesse cenário de mudanças, também se ampliam as formas de leitura e os perfis de leitores. Existem leitores de clássicos, como Franz Kafka, William Shakespeare, Jane Austen ou Jorge Amado. Também existem leitores de obras mais novas, como as de Itamar Vieira Junior, Aline Bei ou Sally Rooney. Segundo Maria Clara, consumir livros complexos ou mais simples não te faz menos leitor. “Tem um escritor francês, Daniel Pennac, que escreveu ‘Os dez direitos do leitor’ e ele diz que um deles é o direito de não ler. Você não precisa ler tudo, a leitura deve ser um ato de prazer”, explica. 

Alguns dos livros mais marcantes para as pessoas, segundo a Revista Retratos da Leitura, não são os “clássicos”:

A leitura pode ser encarada como um momento de lazer, assim como assistir um filme ou uma série. Identificar gêneros e temas de interesse é um passo importante para criar o hábito. O professor de Literatura da UFSM, Anselmo Peres, conta que desenvolveu interesse pela leitura quando suas irmãs lhe apresentaram alguns títulos. Mas, foi na sua graduação em Letras que entendeu que mais se interessava pela literatura LGBTQIA+ e feminista. 

Segundo ele, a leitura LGBTQIA+, por exemplo, tem crescido tanto para livros nacionais como internacionais. “Há mais leitores que estão interessados em consumir essa literatura”, afirma. “Vermelho, branco e sangue azul”, de Casey McQuiston, “Quinze Dias”, de Vitor Martins ou “Os sete maridos de Evelyn Hugo”, de Taylor Jenkins Reid, são exemplos de livros de romance baseados em relações LGBTQIA+. 

A identificação com personagens e histórias pode contribuir para processos de autoconhecimento. A liberdade de escolher o que ler também é uma forma de expressão, afirma Anselmo. 

Para quem quer começar 

Iniciar a leitura por ler livros muito densos, que sejam de compreensão mais complexa, pode ser um caminho mais difícil. Segundo Anselmo, deve-se começar a ler por aquilo que mais gosta. “Se uma pessoa gosta de mitologia grega, não é muito bom começar a ler por Odisseia. Se a gente estiver falando de um jovem leitor, é muito mais produtivo ler Percy Jackson”, sugere. 

Segundo o professor, para indicar um livro, ele tentaria entender mais sobre a pessoa e sobre a vida dela. “Se estiver falando com uma pessoa com a vida muito romântica e que tem potencial em se atrair pelo mundo da poesia, eu recomendaria uma escritora que tem alguma relação com a própria identidade dela. Então, se eu tivesse a infância de uma menina negra, eu provavelmente recomendaria a poesia da Conceição Evaristo. Se estivesse falando com um jovem que já se entende gay, recomendaria os contos do Caio Fernando Abreu”, exemplifica.  

A rotina pode dificultar a criação do hábito de leitura, especialmente com o consumo constante de conteúdos rápidos. Contudo, entre páginas físicas e telas, o hábito da leitura não desaparece, mas se transforma. Em diferentes formatos e rotinas, o desafio passa a ser menos sobre onde se lê e mais sobre como a leitura encontra espaço no cotidiano. 

Seguir alguns combinados diários pode facilitar a adesão ao hábito. Segundo a CNN, algumas práticas que podem ajudar são: 

  1. Constância: ler pelo menos 5 páginas por dia ou manter um meta de páginas para ler;
  2. Curadoria: escolha os livros de acordo com seu gosto;
  3. Concentração: evite ter telas por perto durante seu momento de leitura 
  4. Comunidade: a leitura não é uma atividade solitária, participe de grupos de leitura com seus amigos;
  5. Calma: entenda que o hábito pode demorar para ser construído, leia tranquilamente.

Dicas de obras para ler no MEC Livros 

O Governo Federal desenvolveu o MEC Livros, uma biblioteca digital com mais de 6 mil títulos literários e totalmente gratuita. O acervo possui livros nacionais e internacionais de poesia, histórias em quadrinhos, romances, contos e muitos outros gêneros literários. Alguns livros que podem ajudar a iniciar o hábito da leitura:

  • A árvore mais sozinha do mundo, de Mariana Salomão Carrara;
  • Capitães da Areia, de Jorge Amado;
  • Torto arado, de Itamar Vieira Junior;
  • A Metamorfose, de Franz Kafka;
  • Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll; 
  • A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli;
  • A Vegetariana, de Han Kang;
  • Harry Potter e a Pedra Filosofal, de J. K. Rowling;
  • Arlindo, Ilustralu; 
  • Enquanto eu não te encontro, de Pedro Ruas;
  • Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago;
  • A palavra que resta, de Stênio Gardel;

 

Texto e fotos: Jessica Mocellin, acadêmica de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias 
Ilustrações: Pyetra Dornelles, acadêmica de Desenho Industrial e estagiária da Agência de Notícias 
Edição: Mariana Henriques, jornalista

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