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“A Libras não é só comunicação”: língua marca identidades na UFSM

No Centro de Educação da UFSM, a professora Carilissa Dall’Aba ensina Libras há 12 anos

Em algumas salas de aula do Centro de Educação (CE) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o silêncio não significa ausência de diálogo. Mãos se movem com rapidez, o rosto acompanha cada expressão e o corpo inteiro participa da construção das frases. É neste espaço que a professora Carilissa Dall’Aba, 40 anos, ensina, e reafirma, a cada aula, que língua também é identidade.

A relação com a Língua Brasileira de Sinais (Libras) começou na própria história dela. Carilissa nasceu surda. “Ainda durante a gestação, minha mãe contraiu rubéola e os médicos já avisaram que podia nascer com alguma deficiência. Depois que eu nasci, confirmaram a surdez”, conta.

Antes da docência, o sonho era outro. A rotina de infância, marcada por idas frequentes ao hospital, despertou o interesse pela área da saúde. “Eu amava o ambiente hospitalar. Gostava do cheiro, das pessoas, brincava de hospital em casa. Achava que ia trabalhar com isso”, lembra. A escolha, no entanto, esbarrou na falta de acessibilidade. “Naquela época, era difícil surdo trabalhar na área da saúde. A pessoa surda tem sensibilidade em alguns ambientes, e fica difícil a adaptação nessa área”, explica.

O caminho mudou ainda na adolescência, incentivado por um professor. “Ele falava: ‘no futuro tu pode ser professora de Libras’. Aos 16 anos, surgiu a oportunidade de formação e eu segui. Parece que eu não escolhi. As coisas foram acontecendo”, diz. Hoje, são 24 anos de atuação como professora de Libras, sendo 12 deles na UFSM.

Leis e acesso

O Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais, celebrado em 24 de abril, foi instituído pela Lei nº 13.055/2014. A data marca também os 24 anos da Lei nº 10.436/2002, que reconhece a Libras como meio legal de comunicação, e os 21 anos do Decreto nº 5.626/2005, que regulamenta seu uso no país. Com uma população de mais de 10 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a lei estimula uma maior visibilidade para a comunidade surda.

Na UFSM, de acordo com dados da Coordenadoria de Ações Educacionais (Caed), há atualmente cinco estudantes surdos, três na graduação e dois na pós-graduação, e três professores surdos. Não há técnico-administrativos (TAEs) usuários de Libras. 

Apesar da presença de estudantes surdos, a maior parte das turmas da professora Carilissa é formada por ouvintes. Isso acontece porque, desde 2005, a Libras é obrigatória para os cursos de licenciatura, Pedagogia e Fonoaudiologia. “Os alunos são de Pedagogia, Educação Especial, várias áreas. Eles aprendem Libras como segunda língua”, explica.

Para garantir o acesso às aulas e atividades acadêmicas, dez intérpretes atuam na instituição. Segundo o intérprete da Caed Nelson Rodrigues Cezar, o funcionamento é estruturado por demanda: “Se o aluno surdo entra no curso, ele manda um formulário pedindo intérprete. Aí a gente é alocado”. O trabalho é feito, na maioria das vezes, em dupla. “Não é só traduzir palavra por palavra. Tem que ouvir, processar, entender e construir a informação. É muito desgaste”, afirma.

Além das disciplinas, a Caed oferece cursos de Libras abertos à comunidade acadêmica e ao público externo, em níveis básico, intermediário e avançado, dependendo da demanda apresentada.          

As políticas públicas estão disponibilizadas no site da Caed e Prograd, nos relatórios anuais disponibilizados no link. A Política Institucional de Acessibilidade da UFSM pode ser conferida aqui. A resolução n° 213 de 2025 está disponível no link. 

“A língua constrói quem a gente é”

Para a professora, o uso da Língua Brasileira de Sinais em sala de aula é uma afirmação de identidade

Para Carilissa, a importância da Libras é o direito básico à comunicação. Ela explica que a língua tem um papel direto na construção da identidade da pessoa surda. “O surdo que conhece Libras conhece o seu próprio eu. Se não conhece, fica confuso, não sabe se é surdo ou ouvinte”, conta.

E essa transformação aparece no cotidiano da universidade. A professora relata o caso de um estudante que passou a se reconhecer como surdo depois de aprender a língua. “Ele tinha vergonha. Depois começou a aprender Libras, a ter contato com outros surdos, e disse: ‘eu sou surdo’. Começou a ter orgulho. A língua libertou ele”, resume.

Tecnologia não substitui presença

Com o avanço de aplicativos e ferramentas digitais, a Libras também entra em debate no campo da tecnologia. Para Carilissa, o uso dessas ferramentas tem limites claros.

“A língua de sinais é visual. Tem expressão facial, tem movimento do corpo. Um aplicativo não consegue fazer isso”, afirma. Ela reconhece que recursos digitais podem ajudar em situações pontuais, como consulta de sinais isolados. Mas faz um alerta: “Não substitui um professor ou um intérprete. Nunca.”

Mais do que uma data

Na UFSM, a Libras está presente em políticas institucionais, disciplinas obrigatórias e ações de formação. Mas, para além disso, ela atravessa histórias individuais e coletivas. Ao falar sobre o Dia Nacional da Libras, Carilissa não recorre a termos técnicos nem à legislação. Ela volta ao essencial:

“A Libras ajuda entender a vida, aceitar sua identidade, seu orgulho, isso fortalece nossa confiança. Fico sempre pensando que a Libras não é só comunicação, mas também ajuda na identidade da cultura surda. O surdo que conhece a Libras, conhece sua própria pessoa, o seu próprio eu.”, finaliza.

A entrevista que compõe esta reportagem foi mediada pelo intérprete da Caed Nelson Rodrigues Cezar.

Texto: Isadora Bortolotto, estudante de Jornalismo e voluntária na Agência de Notícias
Fotos: Arquivo pessoal
Edição: Ricardo Bonfanti

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