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Por que devemos estudar a Antártida?

Descoberta há mais de 200 anos e localizada no Polo Sul, a Antártida é o continente mais frio, seco e ventoso do planeta. Com uma cobertura de 14 milhões de quilômetros quadrados e contendo cerca de 70% da água doce mundial, a região, apesar de desértica, abriga uma imensa quantidade de saberes, ciência e vida. Essa diversidade atrai, há anos, a atenção mundial de pesquisadores interessados em produção científica, inclusive de cientistas da UFSM.

Esse contexto estimulou a criação do Tratado da Antártica, um acordo assinado em 1959 e em vigor desde 1961. Até maio de 2026, o sistema do tratado contava com 58 países, incluindo o Brasil, que aderiram ao acordo ao longo das décadas. O principal objetivo do documento é destinar o continente exclusivamente a fins pacíficos e à pesquisa científica, e proibir qualquer atividade militar e exploração.

Luciano recolheu amostras durante expedição ao continente de gelo

Segundo o site da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, o Brasil aderiu ao tratado em 1975. Nesse sentido, em janeiro de 1982, o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) foi oficialmente criado a fim de promover a pesquisa científica no continente. Alguns anos depois, em 1993, o Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) fundou o que hoje se conhece como Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas (Nupac) – nomenclatura adquirida em 2003 devido à crescente demanda científica. Atualmente, a iniciativa realiza expedições científicas em solo antártico, em sua maioria lideradas pelo Centro Polar e Climático (CPC) da UFRGS, que é integrante do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera.

Um dos pesquisadores vinculados ao CPC é o geólogo Luciano Marquetto, professor adjunto do Departamento de Geociências da UFSM. Luciano esteve na Antártida em duas expedições científicas, realizadas em 2010 e 2015, ainda durante sua trajetória acadêmica na UFRGS. A primeira experiência aconteceu no final de sua graduação, quando integrou uma equipe multidisciplinar formada por cerca de oito pesquisadores de diferentes áreas. O grupo permaneceu acampado entre 10 e 15 dias na Ilha Rei George, na região da Península Antártica, realizando estudos ligados ao monitoramento de geleiras. “A gente ficou acampado, mas vendo o navio e vendo a base brasileira”, relembra o pesquisador.

Na expedição de 2010, o principal objetivo era acompanhar o chamado balanço de massa de uma geleira, analisando desde o movimento do gelo até o fluxo da água resultante do degelo. Enquanto alguns pesquisadores instalavam estacas para medir a deposição de neve e o deslocamento da geleira, outros coletavam sedimentos e realizavam levantamentos geológicos. Segundo Luciano, a experiência também exigia adaptação às condições extremas do continente. “Muda toda a rotina para quem não está acostumado a acampar”, explica. “Tem uma série de cuidados especiais e de segurança.”

Já em 2015, Luciano participou da Primeira Travessia Brasileira do Manto de Gelo da Antártica Ocidental, realizada com o objetivo de coletar amostras de neve e gelo para análises ambientais e climáticas dos últimos 300 anos. Ao lado de outros seis pesquisadores, Luciano percorreu ao longo de 11 dias um total de 1,4 mil quilômetros. Desta vez, a equipe seguiu para o interior do continente, distante das regiões costeiras onde normalmente se concentram as pesquisas brasileiras. “A gente foi bem para o meio [da Antártida]”, conta.

O pesquisador afirma que a experiência também despertou um forte sentimento de contemplação

Além da dimensão científica, Luciano destaca os impactos humanos e emocionais das expedições. Segundo ele, uma das experiências mais marcantes foi a travessia pelo interior do continente, onde a paisagem é formada apenas por neve, gelo e silêncio. “Antártica é um grande deserto”, descreve. “Era uma vastidão de nada.” O pesquisador relembra que, durante dias de deslocamento, não havia sinais de vida, mar ou montanhas visíveis no horizonte.

Outro aspecto que chamou atenção foi a sensação provocada pela ausência de noites durante o verão antártico. Em alguns momentos, a equipe passava mais de 12 horas trabalhando sem perceber o tempo passar, já que o Sol permanecia visível continuamente. “Parece que o tempo está congelado”, comenta Luciano.

Apesar das dificuldades logísticas e do isolamento extremo, o pesquisador afirma que a experiência também despertou um forte sentimento de contemplação sobre a dimensão do planeta. “É algo até meio poético estar em lugares em que ninguém nunca esteve”, relata. “Tu pode passar dias e dias andando no meio da neve e não vai ter nada. O planeta é uma coisa fantástica mesmo.”

A importância do continente de gelo

Para Luciano, a Antártida é considerada uma região estratégica para a ciência porque funciona como um “laboratório natural global”. O frio extremo, a distância de grandes centros urbanos e industriais e a dinâmica atmosférica da região fazem com que o continente preserve, em suas camadas de neve e gelo, registros climáticos da Terra de centenas de milhares de anos. “O continente preserva, nas suas camadas de neve e gelo, a história climática da Terra nas últimas centenas de milhares de anos”, explica o pesquisador.

Segundo ele, compreender esses registros é fundamental para entender não apenas o passado climático do planeta, mas também os possíveis cenários futuros diante das mudanças ambientais atuais.

Entre os principais temas pesquisados atualmente na Antártida estão estudos relacionados à oceanografia do Oceano Austral, biodiversidade marinha e microbiana, meteorologia, dinâmica atmosférica e pesquisas paleoclimáticas. No entanto, Luciano destaca que uma das maiores preocupações atuais da comunidade científica envolve a estabilidade do manto de gelo antártico frente às mudanças climáticas.

A Antártida concentra aproximadamente 70% da água doce do planeta na forma de gelo. Em algumas regiões, a espessura dessa camada pode chegar a quase cinco mil metros. Embora não exista previsão de derretimento completo do continente, pesquisadores monitoram áreas consideradas mais vulneráveis, que podem acelerar o fluxo de gelo em direção ao oceano e contribuir para a elevação do nível do mar. “Muitas das pesquisas realizadas na Antártida são a base para a ciência climática”, afirma Luciano. “As alterações observadas no continente funcionam como um termômetro global.”

Além de indicar transformações ambientais em escala planetária, o gelo antártico também guarda registros químicos da atmosfera terrestre. A partir da perfuração de testemunhos de gelo, cientistas conseguem reconstruir as condições climáticas de milhares de anos atrás e identificar relações entre temperatura, concentração de gases de efeito estufa e mudanças ambientais.

Apesar da aparente distância geográfica, Luciano ressalta que o que acontece na Antártida possui impactos diretos sobre o Brasil, especialmente sobre a região Sul. “Aqui no Brasil costumamos ter uma visão de que a Antártica fica muito longe. Na verdade, ela é o segundo continente mais próximo do nosso país”, explica. “Porto Alegre fica mais perto da Península Antártica do que de Boa Vista.”

De acordo com ele, o Oceano Austral exerce papel fundamental na regulação climática do planeta e influencia diretamente a formação das frentes frias que chegam ao Rio Grande do Sul. O aquecimento dessas águas pode enfraquecer a intensidade dessas massas de ar, favorecendo ondas de calor prolongadas e bloqueios atmosféricos. “Já vimos os efeitos desse fenômeno em 2024”, afirma.

Além da atuação internacional por meio do Tratado da Antártica, o Brasil mantém presença científica contínua no continente através do Proantar. O país desenvolve pesquisas em áreas como oceanografia, biologia marinha, geologia, meteorologia, climatologia e estudos sobre permafrost.

Luciano destaca ainda a importância dos módulos científicos Criosfera 1 e Criosfera 2, instalados no interior do continente antártico. O Criosfera 1, inaugurado em 2012, está localizado a cerca de 670 quilômetros do Polo Sul e é considerado o laboratório científico latino-americano mais ao sul do planeta. Já o Criosfera 2 foi instalado em 2022.

Os equipamentos possuem instrumentação voltada à coleta de dados meteorológicos e da química atmosférica, auxiliando pesquisadores na investigação das mudanças climáticas e de seus impactos no clima do Sul do Brasil. “Compreendo que o Brasil não só atua na Antártica, mas também tem protagonismo em algumas áreas de pesquisa específicas”, pontua o pesquisador.

Entender para proteger

Para Luciano, manter pesquisas científicas na Antártida exige investimentos contínuos, cooperação entre universidades e infraestrutura especializada. Áreas como a glacioquímica, foco de sua atuação, dependem de equipamentos laboratoriais complexos e análises realizadas em parceria com diferentes instituições. “Nem na UFRGS se tem todos os equipamentos que se gostaria. Acaba que a UFRGS acaba tendo colaboração com outras universidades para que possa utilizar os laboratórios”, explica. Segundo ele, grande parte da pesquisa polar brasileira só é possível graças a redes de colaboração científica construídas ao longo de décadas.

Na UFSM, Luciano acredita que ainda há espaço para ampliar iniciativas ligadas às pesquisas antárticas, embora reconheça que muitos pesquisadores acabam direcionando esforços para demandas consideradas mais urgentes, como estudos relacionados à crise hídrica e à resiliência climática no Rio Grande do Sul. “A água subterrânea acaba sendo um ponto bem importante”, afirma. Para o pesquisador, fortalecer a produção científica em áreas polares também significa ampliar investimentos em formação de pesquisadores, laboratórios e projetos de longo prazo.

Além da produção acadêmica, Luciano ressalta a importância da divulgação científica para aproximar a população das pesquisas realizadas no continente gelado. Segundo ele, eventos e palestras ajudam a despertar o interesse de estudantes e da sociedade para temas ligados às mudanças climáticas e ao papel estratégico da Antártida na compreensão do planeta. “Foi bem interessante, porque tivemos perguntas tanto mais pessoais quanto perguntas mais técnicas, mais científicas”, relembra sobre uma palestra recente realizada na UFSM.

Curiosidades sobre a Antártica

Além da relevância científica e climática, a Antártica também chama atenção por seus fenômenos naturais extremos. Segundo a British Antarctic Survey, instituição britânica especializada em pesquisas polares, durante o verão antártico, algumas regiões permanecem iluminadas pelo Sol durante 24 horas por dia. Já no inverno ocorre o contrário: períodos prolongados de escuridão tomam conta do continente por vários meses consecutivos.

Mesmo em condições consideradas inóspitas para os seres humanos, diversos animais conseguem sobreviver na região. Entre as espécies mais conhecidas estão focas, baleias e o pinguim-imperador, símbolo do continente por sua capacidade de resistir às baixíssimas temperaturas e aos fortes ventos. Outra curiosidade está escondida sob as espessas camadas de gelo. A Antártica abriga montanhas, lagos subterrâneos e até vulcões ativos. Um dos mais conhecidos é o Monte Erebus, localizado na Ilha de Ross e considerado o vulcão ativo mais ao sul do planeta.

Pesquisas realizadas no continente também já encontraram fósseis de plantas e dinossauros, evidências de que a Antártica nem sempre foi coberta por gelo. Milhões de anos atrás, a região possuía temperaturas muito mais elevadas e condições ambientais bastante diferentes das atuais.

Até mesmo o nome do continente guarda uma curiosidade pouco conhecida. Afinal, devemos chamá-lo de Antártida ou Antártica? As duas formas estão corretas e possuem origem no termo grego antarktikós, que significa “oposto ao Ártico”. No português, “Antártida” costuma ser usada para se referir especificamente ao continente gelado, enquanto “Antártica” aparece com frequência em contextos científicos e geográficos. No fim das contas, independentemente do nome escolhido, o vasto território de gelo continua despertando fascínio e sendo uma das regiões mais importantes para a compreensão do planeta.

Texto e artes: Pedro Moro, estudante de Jornalismo e bolsista a Agência de Notícias
Fotos: arquivo do Centro Polar e Climático e de Luciano Marchetto
Edição: Lucas Casali

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