Ticker

6/recent/ticker-posts

Ad Code

Responsive Advertisement

Pesquisadores da Fiocruz e da UFSM defendem que América Latina e Caribe tenham soberania genômica

Um artigo publicado na revista científica The Lancet defende que países latino-americanos precisam deixar de ser apenas fornecedores de dados genéticos e comecem a controlar tecnologia, infraestrutura e benefícios da pesquisa genômica.

Por décadas, países da América Latina contribuíram com amostras biológicas, dados genéticos e participação em pesquisas internacionais. Segundo o texto, a região continua ocupando um papel desigual: ela fornece dados genômicos, enquanto países ricos concentram tecnologia, patentes e capacidade industrial.

No artigo “Genomic sovereignty for health equity in Latin America and the Caribbean” (em tradução livre “Soberania genômica para a equidade em saúde na América Latina e no Caribe”), os pesquisadores brasileiros Gabriel da Luz Wallau (UFSM e Fiocruz) e Túlio de Lima Campos (Fiocruz) defendem a criação de uma agenda de “soberania genômica” para a América Latina e o Caribe. A proposta é que os países da região tenham maior autonomia sobre seus dados genéticos e participem de forma mais justa dos benefícios gerados pela ciência.

Atualmente, a Fiocruz junto à Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem utilizado a genômica para estudar patógenos, os  agentes biológicos (vírus e bactérias) capazes de invadir um organismo hospedeiro e provocar doenças. A genômica faz o papel da caracterização e identificação de vírus e doenças, podendo elencar a sua gravidade ao ser humano.

O que é soberania genômica?


A ideia de soberania genômica parte do princípio de que informações genéticas, sejam elas humanas, de vírus ou bactérias, são recursos estratégicos para grandes potências farmacêuticas. Elas ajudam no desenvolvimento de vacinas, medicamentos, testes diagnósticos e sistemas de vigilância epidemiológica.

Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, cientistas do mundo inteiro compartilharam rapidamente sequências genéticas do coronavírus. Isso acelerou o desenvolvimento de vacinas e permitiu monitorar variantes perigosas. Porém, muitos países latino-americanos enfrentaram atrasos no acesso às vacinas e pouca participação nas decisões globais sobre propriedade intelectual e produção farmacêutica. Wallau complementa: “existe um desbalanço, a gente gera informação para ajudar a responder um surto global, mas quando nós precisamos do retorno, nós não temos esse retorno, não na velocidade que nós precisamos”.  

O Tratado Pandêmico, que foi emitido pela Organização Mundial de Saúde após a pandemia Covid-19, traz ao debate como as grandes potências farmacêuticas detém o poder e se recusam a entrar em um consenso sobre compartilhamento de dados e distribuição igualitária de recursos.

Medicina de precisão pode aumentar desigualdades

O artigo dos pesquisadores Gabriel da Luz Wallau  e Túlio de Lima Campos também chama atenção para outro problema: a falta de diversidade genética nos grandes bancos de dados internacionais. Hoje, a maior parte das informações genéticas usadas pela medicina de precisão vem de populações europeias e norte-americanas. Isso significa que testes genéticos e ferramentas de diagnóstico podem funcionar pior em populações com diversidades genéticas maiores, como as latino-americanas.

Na prática, uma variante genética considerada perigosa em europeus pode ser comum e inofensiva em brasileiros, por exemplo. O resultado pode ser o excesso de diagnósticos, erros clínicos ou tratamentos inadequados. Para os pesquisadores, investir em bancos genéticos regionais é essencial para reduzir desigualdades em saúde e tornar a medicina de precisão realmente eficiente para diferentes populações.

Dependência tecnológica


Os autores argumentam que muitos países da região ampliaram a sua capacidade de sequenciamento genético durante a pandemia, mas continuam dependentes de infraestrutura estrangeira para a análise de dados, o armazenamento e o desenvolvimento tecnológico. Para Wallau, o Brasil se encontra em um estágio inicial de desenvolvimento: “nós somos um grande gerador de dados, mas a gente não consegue fazer os próximos passos”. Isso cria um modelo no qual países latino-americanos fornecem dados “brutos”, enquanto grandes centros internacionais transformam essas informações em produtos, tecnologias e patentes. “O desafio é garantir que o compartilhamento de dados também resulte em compartilhamento de poder, infraestrutura e tecnologia”, defendem os pesquisadores.

Ciência, saúde e geopolítica

A discussão sobre soberania genômica mostra como a ciência e a geopolítica estão cada vez mais conectadas. Dados genéticos deixaram de ser apenas material de pesquisa: hoje fazem parte de disputas econômicas, diplomáticas e tecnológicas. Para os autores, a questão central é garantir que a região da América Latina e do Caribe deixe de ser apenas fornecedora de amostras e passe a ocupar posição de liderança na produção científica global.

Texto: Laura Fedatto/Bolsista SCom CCNE
Edição: Wellington Hack/Bolsista SCom CCNE

Enregistrer un commentaire

0 Commentaires