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“Quem tem o direito de rir?”: feminismo e palhaçaria marcam o 8º Simpósio das Artes Cênicas

Palestra “A palhaçaria feminista e a criação da Coleção Palhaças na Universidade” marcou a abertura do simpósio

O riso é um acontecimento poderoso. Ele pode aproximar pessoas, mudar o dia de alguém e aliviar momentos difíceis. Mas ele também pode provocar desconforto e revelar críticas sociais. Nas artes cênicas, o humor pode ser utilizado para desmascarar injustiças e criar resistência. Em volta disso, o 8º Simpósio das Artes Cênicas: Feminismos e Estudos de Gênero acontece. 

“Debater feminismos e os estudos de gênero permanece imprescindível, frente aos índices que seguem aumentando em relação ao machismo e à misoginia estruturais. As violências ocorrem em diversas formas e degradações. Seja em um olhar desrespeitoso, seja um silenciamento, seja uma fala depreciativa, seja um tom de superioridade, seja um gaslighting, seja a disparidade salarial ou em ações ainda mais covardes que penalizam a sociedade inteira. Sigamos trabalhando seriamente e com muita coragem, com os olhos atentos e com sororidade, para que as violências estruturais da nossa cultura, historicamente camufladas, ocultas, mascaradas, invisibilizadas e não reconhecidas, continuem vindo à tona, sob lentes precisas, inequívocas e com seus devidos nomes. Sigamos trabalhando com inteligência, dedicação, seriedade e criatividade, pela educação, pela arte, pela não violência”. Com a fala de Mariane Magno, chefe do Departamento de Artes Cênicas da UFSM, o primeiro dia de simpósio teve início, nesta terça-feira (20).

Até sábado (24), o evento trará diversas perspectivas sobre o estudo de gênero. Com palestras e oficinas, os estudantes poderão refletir sobre a importância da luta por direitos das mulheres dentro das artes. Daiani Brum, professora do curso de Artes Cênicas, foi uma das organizadoras do evento e teve influência na escolha do tema deste ano. “Eu sou pesquisadora dessa temática há cerca de 18 anos. A importância é trazer essas temáticas que já dialogam com as necessidades, vontades das pesquisas vindo do próprio corpo discente, e trazer essas referências para que elas possam aprofundar as pesquisas e ter os caminhos, as referências, a partir das palestrantes, do conteúdo das falas delas”, destaca. 

A palhaçaria 

O primeiro dia do simpósio foi marcado pelo estudo da palhaçaria. A palestra de Ana Elvira Wuo, da Universidade Federal de Pelotas, foi a primeira do dia. Ana contou sua história no meio acadêmico e a da construção de sua palhaça. Falou, também, sobre preconceitos e machismos que sofreu durante seus estudos. “Eu estou falando da minha trajetória, porque ela é uma trajetória que vem dessas lutas. E a gente fala do próprio conceito do feminismo, que é um conjunto de ideias e movimentos que buscam a igualdade de direitos e oportunidades de mulheres. Enfrentando as desigualdades, discriminações, violências relacionadas ao gênero”, falou Ana durante a palestra “A palhaçaria feminista e a criação da Coleção Palhaças na Universidade”. 

Logo foi a vez da palestra “Corpo Mandinga e as Macumbarias do Riso”, ministrada por Antônia Vilarinho, da Universidade de São Paulo. Durante a conversa, Antônia falou sobre sua pesquisa de pós- doutorado que envolve a comicidade a partir das matrizes africanas. O jongo e a capoeira são exemplos de atividades utilizadas para o treinamento de atores e atrizes da comicidade. 

Oficina de palhaçaria incentivou participantes a utilizarem suas expressões corporais

A palhaçaria tem raízes nos tempos medievais. Os bufões e outros artistas cômicos divertiam públicos em feiras, espaços populares e cortes. Alguns utilizavam o humor para ridicularizar costumes e apontar contradições sociais. O palhaço moderno surgiu no século XVIII, principalmente em circos. O ambiente da palhaçaria era totalmente tomado por homens.

“Quando comecei a estudar palhaçaria, não havia nenhuma referência de mulheres palhaças”, lembrou Daiani. Esse foi mais um motivador para que ela pesquisasse sobre a área e organizasse quatro livros sobre o tema. “Eu não tive essas referências, então me vi nesse papel de gerar essas referências para que as minhas alunas e alunos tenham já desde o início essa referência na palhaçaria de mulheres, nessa comicidade das mulheres, e a gente discutir quem tem o direito de rir e produzir o riso”. E foi isso que Daiani buscou passar em sua oficina de palhaçaria que aconteceu nesta terça. 

Os participantes eram de diversas áreas de estudo. Dieniffer Ferrão é estudante de Pedagogia e se interessa pela palhaçaria. O primeiro contato que teve com a arte foi durante a disciplina de jogo teatral, e sentiu que combinava com o que acreditava. “Foi uma filosofia que combinou bastante com o que eu pensava. Comecei a ter projetos de palhaçaria fora da universidade também. Uma oficina sempre é bom para expandir horizontes, ainda mais com a Daiani, que é um nome muito glorificado dentro e fora da universidade”, explicou.

Doutora Catapimbas e Sexy Lady são as duas palhaças de Dieniffer. “A gente defende muito essa questão de que o palhaço não é um personagem. Então, é uma parte que se mantém escondida dentro da gente. Existe, no meu caso, essa diferença das duas personalidades. Porque a Sexy Lady, que foi a palhaça que nasceu na Universidade, é um pouco mais ácida”. Já a Doutora Catapimbas é seu alter ego durante seu trabalho com a ONG Esquadrão da Alegria. 

Daiani explica que a palhaça deve surgir de forma natural. “Na linha que eu trabalho, essa personagem é muito construída a partir do que a pessoa já traz da história, da sua presença, são características pessoais que são ampliadas, exageradas e colocadas no contexto da comicidade, no caso, até na maquiagem, se a pessoa quer dar destaque a alguma característica que ela já possui, ela destaca na maquiagem. A roupa, às vezes a gente olha para figurinos da infância e tenta resgatar aquilo no figurino atual da palhaça. Nessa perspectiva, a gente não fala muito em personagem, seria mais um alter ego, uma coisa assim, muito vinculada ao que a pessoa já é”, relatou. 

Assim, a Palhaça Brum é o alter ego de Daiani. “Ela é bem vinculada à minha pessoa desde o início. Um exemplo disso é que durante toda a minha vida eu sempre fui confundida, mesmo com o cabelo na cintura e perguntavam: é menino ou menina? Isso me incomodava muito. Só que por meio da palhaça eu abracei essa característica. Então hoje a minha palhaça não tem um gênero definido e as pessoas ficam nessa dúvida, palhaça é palhaço? Isso faz parte do jogo”. 

Durante a oficina, os alunos foram incentivados a se soltarem e se sentirem confortáveis em serem ‘palhacescos’. Foram trabalhados jogos, quedas, batidas e estruturas que identificam as palhaças. No final, os participantes da oficina realizaram uma apresentação com suas novas habilidades de palhaços. 

O evento continua

O 8º Simpósio das Artes Cênicas: Feminismos e Estudos de Gênero acontece até sábado (24). Oficinas e palestras continuam acontecendo e a participação é aberta ao público. Uma inscrição prévia é necessária. 

Para mais informações, acesse o site do evento.  

Texto: Jessica Mocellin, acadêmica de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Fotografias: Mathias Ilnicki, acadêmico de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Ricardo Bonfanti, jornalista

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