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Paralelo 33 debate segurança pública a partir do filme “Carandiru”

Foto colorida horizontal mostra uma sala escura de projeção com fileiras de cadeiras ocupadas por diversas pessoas sentadas, vistas de costas. Ao fundo, uma grande tela exibe uma cena do filme “Carandiru” com duas pessoas em destaque. O ambiente tem iluminação baixa, com luz principal vindo da projeção.
Estudantes de diferentes cursos assistiram a exibição de “Carandiru”

Mais de 80 pessoas participaram, nesta segunda-feira (4), da exibição do filme “Carandiru” no auditório do prédio 67 do campus sede da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Aberto ao público e com entrada gratuita, o evento foi promovido pelo projeto de extensão “Paralelo 33”, vinculado ao curso de Relações Internacionais. O projeto é voltado ao debate acadêmico sobre países em desenvolvimento da América Latina, África, Ásia e Oceania, com base em abordagens teóricas relacionadas ao Sul Global. 

A sessão de cinema também promoveu um debate sobre temas sociais abordados pelo filme exibido. A atividade integra a programação temática do projeto, dedicada ao eixo de segurança internacional na perspectiva do Sul Global. Além disso, os participantes presentes puderam obter quatro horas de Atividades Complementares de Graduação (ACG).

Dirigido por Hector Babenco e baseado no livro “Estação Carandiru”, escrito por Drauzio Varella, o longa retrata a realidade da Casa de Detenção de São Paulo e aborda questões como sistema penitenciário brasileiro, violência estatal, desigualdade social e direitos humanos. 

Foto colorida horizontal que mostra Guilherme, presidente do projeto. Ele é um homem jovem branco de óculos, com moletom escuro, que gesticula com a mão esquerda enquanto fala. Guilherme está em pé diante de uma tela de projeção com a imagem da capa do filme Carandiru, em que várias pessoas estão abaixadas.
Guilherme Lopes Brandão, presidente do Paralelo 33, conduziu a sessão de cinema

Cinema como espaço de debate universitário

Por meio do audiovisual, iniciativas acadêmicas como o Paralelo 33 ampliam a discussão sobre temáticas sociais, políticas e culturais na universidade. Conforme o presidente do projeto e estudante de Relações Internacionais, Guilherme Lopes Brandão, a escolha de “Carandiru” permite refletir sobre pautas atuais a partir do cinema nacional. “Quando trazemos um filme desses, no sentido das Relações Internacionais, a gente consegue ter a abertura para explicar o conflito de visões políticas que está muito latente ultimamente”, afirmou. 

O estudante também destacou o papel do cinema como instrumento de integração entre cursos e áreas do conhecimento distintas. “Muitas das vezes ficamos muito fechados no ciclo do nosso próprio curso. O cinema entra como um recurso intercultural dentro do próprio ambiente acadêmico para transformar isso”, destacou.

Sobre a escolha da obra, Guilherme ressaltou a relação entre o filme e o tema do mês escolhido pelo projeto: segurança. “Carandiru é um marco histórico no quesito de segurança pública no Brasil, justamente porque ele levou à fundação de movimentos muito maiores no país”, afirmou. O presidente do Paralelo 33 ainda ressaltou o interesse em ampliar a variedade de obras para as sessões, com a finalidade de tratar de diferentes contextos mundiais. “No ano passado nós focamos em obras nacionais. Neste ano, queremos expandir para filmes latino-americanos e do Sul Global, como a cinematografia iraniana que é muito grande e forte”, antecipou.

 
Do livro ao audiovisual, a obra é baseada em um acontecimento real
Do livro ao cinema, a obra é baseada em um acontecimento real sobre o sistema prisional brasileiro

O massacre no Carandiru 

A Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru, foi local de uma operação da Polícia Militar em 2 de outubro de 1992, após uma rebelião iniciada no interior do presídio. Na época, a unidade tinha capacidade para cerca de 4 mil presos, mas abrigava mais de 7 mil detentos. A ação resultou na morte de 111 presos e marcou a história do sistema penitenciário brasileiro. A unidade prisional foi desativada em 2002 e, posteriormente, demolida para dar lugar ao Parque da Juventude.

O episódio provocou a discussão sobre violência estatal, direitos humanos e superlotação carcerária no país. No campo cultural, o massacre inspirou, por exemplo, a música “Diário de um detento”, dos Racionais MCs, considerado um dos marcos do rap nacional. O videoclipe de “Diário de um detento”, gravado no Carandiru, conquistou o prêmio de melhor vídeo de rap no MTV Video Awards Brasil e Escolha da Audiência de 1998.

Já o filme “Carandiru”, lançado em 2003, dirigido por Hector Babenco e inspirado no livro “Estação Carandiru”, do médico Drauzio Varella, reconstrói o cotidiano dos detentos antes do massacre por meio de histórias individuais e relações estabelecidas dentro da prisão. A narrativa também apresenta a atuação de um médico no presídio, contexto inspirado na experiência de Drauzio no local, onde realizou atendimentos de saúde e ações de prevenção, incluindo casos de HIV no sistema carcerário. No desfecho, a obra retrata a invasão policial e os acontecimentos de 1992, conectando a narrativa cinematográfica a um dos episódios mais marcantes da história recente do Brasil. 

Foto colorida horizontal mostra uma sala ampla com várias fileiras de cadeiras verdes ocupadas por um público composto majoritariamente por jovens. As pessoas estão sentadas, assistindo a fala dos membros do projeto. O ambiente é bem iluminado.
Estudantes de diferentes cursos participaram da sessão de exibição de “Carandiru”

Repercussão entre participantes da sessão

Após a sessão do Paralelo 33, os universitários relataram diferentes percepções sobre o filme, e destacaram reflexões provocadas pela narrativa. Estudante de Engenharia Civil, Felipe Padilha afirmou que a obra provocou desconforto ao abordar questões estruturais do sistema prisional brasileiro. “Não esperava que fosse tão impactante, me trouxe muitas sensações ruins, mas eu entendo que é essa a ideia, incomodar pra fazer a gente pensar sobre as situações e trazer à tona tópicos como presídios e ressocialização”, disse.

O estudante Vinicius Pasa, do curso de História, apontou as manifestações religiosas como um elemento secundário presente ao longo da narrativa. “Em vários momentos, foi possível ver presidiários usando guias de religiões afro-brasileiras ou fazendo referência a crenças cristãs. Esses elementos mostram caminhos reais que essas pessoas buscam para tentar lidar com a perspectiva dos próximos anos ou décadas que passarão presas”, observou. 

Foto colorida horizontal de Cauê Santos, vice-presidente do projeto. Ele é um homem e está em pé, com cabelos médios escuros e óculos, vestindo uma camiseta verde e jaqueta preta. Ele está próximo a uma caixa de som e bandeiras ao fundo.
Cauê Santos, vice-presidente do Paralelo 33, durante a sessão desta semana

O projeto e a proposta extensionista

De acordo com Cauê Santos, vice-presidente do projeto, cada sessão tem um assunto específico e busca estimular reflexões a partir das obras apresentadas. “Cada filme que a gente apresenta é como se fosse um pequeno recorte de uma temática que a gente estuda”, reforçou. 

O objetivo do Cine Paralelo, na perspetiva de Cauê, é utilizar o audiovisual como ponto de partida para debates mais amplos sobre sociedade e política. “A ideia dessas exibições é pegar o cinema como um ponto de partida. Os estudantes não estão aqui para resolver os problemas retratados, mas para ter vivo esse pensamento crítico”,pontuou. 

O Paralelo 33 prevê a realização de novas atividades ao longo do semestre. A próxima programação será em breve, em parceria com o Diretório Acadêmico de Relações Internacionais (DARI), e contará com a exibição de uma obra ainda não divulgada pelos organizadores. Para ter mais informações sobre o Paralelo 33, acesse o Instagram do projeto: @paralelotrintaetres

Texto: Giovanna Felkl, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias.

Fotos: Gabriele Mendes, estudante de Jornalismo e estagiária da Agência de Notícias

Edição: Maurício Dias, jornalista

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