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Nova espécie de réptil de 240 milhões de anos é descoberta no Rio Grande do Sul

Representação do Silescelida acristata (Imagem: Matheus Fernandes)

Paleontólogos descreveram uma nova espécie de réptil fóssil encontrada no interior do Rio Grande do Sul que pode ajudar a esclarecer um dos capítulos mais importantes da história evolutiva dos vertebrados terrestres: a origem dos arcossauros, grupo que inclui os dinossauros (incluindo as aves) e os crocodilos.

Batizada de Silescelida acristata, a nova espécie viveu há 240 milhões de anos, em uma época em que os ecossistemas terrestres ainda se recuperavam da maior extinção em massa da história da Terra, a extinção Permo-Triássica. O estudo foi liderado por pesquisadores do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da Universidade Federal de Santa Maria (CAPPA/UFSM) e foi publicado nesta quarta-feira (10), no periódico científico Scientific Reports.

O fóssil foi encontrado no município de Dona Francisca, na região central do Rio Grande do Sul, em rochas do Período Triássico Médio, com aproximadamente 240 milhões de anos. Esse sítio fossilífero faz parte do Geoparque Quarta Colônia UNESCO e já revelou uma rica fauna de espécies fósseis, incluindo fragmentos de alguns dos dinossauros mais antigos do mundo, bem como espécimes bem preservados de um dos maiores predadores terrestres do Período Triássico.

O novo fóssil inclui partes dos membros de uma espécie até então desconhecida. Segundo os autores, a nova espécie pertence a um grupo de répteis arcossauriformes que apresenta características anatômicas próximas das observadas nos ancestrais dos dinossauros e crocodilos.

As análises do grau de parentesco indicam que o animal pode estar relacionado aos Euparkeriidae, um grupo raro e ainda pouco compreendido, conhecido principalmente por fósseis encontrados na África do Sul, China, Rússia, Polônia e Alemanha. “Essa descoberta amplia significativamente a distribuição geográfica conhecida desses animais e reforça a importância do Brasil para o entendimento da evolução dos ancestrais dos arcossauros”, explica o paleontólogo Maurício S. Garcia, autor principal do estudo e aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da UFSM.

A “redescoberta” do fóssil

Fóssil de Silescelida acristata e paleontólogo Maurício Garcia (Foto: Rodrigo Temp Müller)

Além da relevância evolutiva, a descoberta possui uma história curiosa. Parte do fóssil que continha informações essenciais sobre sua procedência havia sido acidentalmente perdida por mais de duas décadas. Apenas em 2022, durante uma visita técnica, os pesquisadores localizaram o fragmento desaparecido na coleção científica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), permitindo confirmar a origem do espécime e realizar sua descrição e identificação formal.

O nome Silescelida une palavras do latim e do grego antigo que significam “silêncio” e “perna”. O silêncio é uma referência ao fato de que parte do fóssil ficou perdida por anos antes de ser finalmente redescoberta, enquanto “perna” refere-se ao fato de que o material encontrado consiste principalmente em ossos dos membros, incluindo o fêmur (osso da coxa). Já a palavra acristata significa literalmente “sem crista”. Esse nome foi escolhido porque o fêmur desse animal não possui uma crista ou protuberância óssea elevada (conhecida como trocânter) onde o músculo da cauda se prenderia, característica que o diferencia de quase todos os seus parentes próximos.

Um predador ágil

Infográfico comparativo de tamanho do Silescelida acristata

Silescelida acristata era um animal relativamente diminuto, comparável em tamanho a um jacaré pequeno, de constituição esguia e locomoção quadrúpede. Sua dieta provavelmente incluía animais menores.

Assim como espécies aparentadas, apresentava membros posicionados de forma semi-ereta, projetados mais abaixo do corpo do que lateralmente. Essa característica permitia uma locomoção mais eficiente e ágil, reduzindo o arrasto do ventre contra o solo e representando uma importante inovação na evolução dos ancestrais dos dinossauros e crocodilos.

Os resultados da pesquisa mostram que a América do Sul pode ter desempenhado um papel mais importante do que se imaginava na diversificação dos arcossauriformes. A presença de Silescelida acristata sugere que esse grupo era mais amplamente distribuído durante o Triássico do que indicava o registro fóssil conhecido até então. Dentre os já mencionados répteis arcossauriformes, Silescelida acristata é o primeiro associado à linhagem dos Euparkeriidae a ocorrer na América do Sul.

A descoberta também reforça o reconhecimento do Rio Grande do Sul como uma das regiões mais importantes do mundo para o estudo da fauna triássica, período que testemunhou a ascensão dos grupos que viriam a dominar os ecossistemas terrestres durante a Era dos Dinossauros.

O fóssil de Silescelida acristata está depositado no acervo científico da PUCRS, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

O estudo foi conduzido por Maurício Silva Garcia (CAPPA/UFSM), Gabriela Menezes Cerqueira (CAPPA/UFSM), Francesco Battista (UFRGS), Marco Brandalise de Andrade e Rodrigo Temp Müller (CAPPA/UFSM). A pesquisa recebeu apoio da CAPES, do CNPq e do INCT Paleovert. O acesso livre e gratuito ao artigo científico foi viabilizado pela CAPES.

Texto: Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da UFSM

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